Friday, November 17, 2006



ARQUEOLOGIA DE UMA PAIXÃO

Odemar Leotti

Criar é como dar “corpo a uma forma de beleza, uma bela estranheza”. Quando nos possibilitamos para a vida, necessariamente a criamos, dando corpo a uma forma de beleza ou nos paralisamos dentro de uma ordem que tenta impor-nos uma rigidez quase cadavérica ao nosso pensar. As corporificações ficam comprometidas e as formas de beleza se produzem quase que num terreno hostil e não propriamente de cada criador. O lugar da criação ou da interpretação é que sempre está sob a rigidez do controle. Nosso língua, ou melhor, a língua em que nos possibilitam dar corpo as formas de existência estão ligadas a jogos de linguagem. A construção ordenadora do que entendemos como vida, como mundo, como realidade está comprometida com esses jogos de linguagem. Como afirma Foucault “a construção literária e esses jogos de linguagem estão diretamente ligados”.
Quando tratamos da questão do autor é bem isso o que acontece. Para Foucault, é impossível enquadrar cada autor dentro do conceito de tradição, porque, segundo ele, esse procedimento “parece se perde com cada autor: não se transmite, mas se torna a descobrir. E às vezes há coisas semelhantes que reaparecem” (Ditos e Escritos, p.402).
Gostaria de confessar que essa construção textual está inspirada na leitura que Foucault faz de Raimond Roussel. Ao analisá-lo no contexto em que escrevia, segundo ele, “estava solitário e isolado e não pôde”, acredita, “ser compreendido”. Roussel só foi compreendido pela leitura “surrealista da linguagem automática”, ou “nos anos 50-60, em uma época em que o problema da relação entre literatura e estrutura lingüística não era somente um tema teórico, mas também um horizonte literário” (ibic. P. 403).
Quando tratamos da tentativa de diferenciação entre arte literária e ciência a discussão sempre esbarra no discurso que coloca uma como ficção e a outra como regida por instrumentais teóricos que lhes possibilitariam o acesso à objetividade das coisas. Uma leitura das superfícies literárias que compõem as formas das coisas coloca para nós que tanto a literatura tida como ficção quanto a tida como científica são produzidas por uma linguagem materializada a partir do “jogos de linguagem” e, segundo Foucault, conviveram no mesmo domínio até o século XVIII e, somente no século XIX, é que a fragmentação do saber em disciplinas operou a separação que resultou em duas disciplinas separadas: teoria literária e sistema teórico. Não se podia ter credibilidade o que não se submetesse a uma sistematização. Para que entendamos que a análise discursiva pode desconstruir essas separações, é preciso que leiamos a citação em que Foucault entende que não existe nada além das palavras e que elas não garantem uma transparência condutora à natureza das coisas. Segundo Foucault

“Trata-se do interesse que tenho em relação ao discurso, não tanto pela estrutura lingüística que torna possível tal ou tal série de enunciações, mas pelo fato de que vivemos em um mundo em que houve coisas ditas. Essas coisas, ditas, em sua própria realidade de coisas ditas, não são, como às vezes se tende muito a pensar, uma espécie de vento que passa sem deixar traços, mas, na realidade, por menores que tenham sido esses traços, elas subsistem, e nós vivemos em um mundo que é todo tecido, entrelaçado pelo discurso, ou seja, enunciados que foram efetivamente pronunciados, coisas que foram ditas, afirmações interrogações, discussões etc., que se sucederam. Desse ponto de vista, não se pode dissociar o mundo histórico em que vivemos de todos os elementos discursivos que habitaram esse mundo e ainda o habitam. A linguagem já dita, a linguagem como já estando lá, determina de uma certa maneira o que se pode dizer depois, independentemente, ou dentro do quadro lingüístico geral. É”. precisamente isso o que me interessa. A possibilidade de encontrar o já dito, e construindo com essa linguagem inventada, de acordo com as regras dele, um certo número de coisas, mas com a condição de que haja sempre uma referência ao já dito...” (ibid. p.403)

Parece que agrada a Foucault o fato de se trabalhar “o jogo de criação literária a partir de um fato cultural e histórico sobre o qual me pareceu que era bom se interrogar”. Ter o objeto como fruto de uma construção discursiva, buscar as formas em que estes objetos foram produzidos por esse mundo dito, eis o que é importante na análise do passado. Mais do que entender o que as pessoas fizeram é importante buscar o que elas diziam e como diziam, ou melhor, buscar o dizer a partir do que estava dito para elas. Poderemos saber com isso as regras que determinaram o que seria o dizer verdadeiro sobre as coisas e como esses objetos se produziram antes de tomarem formas petrificadas e naturais. Haverá a possibilidade também de encontrar saberes que foram sujeitados por formas abstratas que se impuseram como verdades. Por “saberes sujeitados”, Foucault, entende “igualmente toda uma série de saberes que estavam desqualificados como saberes não conceituais, como saberes insuficientemente elaborados: saberes ingênuos, saberes hierarquicamente inferiores, saberes abaixo d nível do conhecimento da cientificidade requeridos”. (FOUCAULT, Em defesa da sociedade, aula de 7 de janeiro de 1976 )


Bibliografia utilizada

FOUCAULT, M. Ditos e Escritos, vol. III, p.402. Forense Universitária, 2003.

FOUCAULT, Em defesa da sociedade, aula de 7 de janeiro de 1976, p, 12, 2002.

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