Sunday, November 19, 2006

DA INTERPRETAÇÃO COMO FORÇA CRIADORA AO SEU EXILAMENTO E A SUA EXCLUSÃO COMO NOSSA FORMA DE CULTIVO DA VIDA - ODEMAR LEOTTI

"não existem fatos, somente interpretações". A interpretação é uma atividade que expressa a força criadora de quem interpreta, um movimento que não se conclui, mas se prolonga infinitamente, aonde se pode provar tanto uma coisa quanto o seu contrário, sendo ambas - como o autor coloca mais abaixo - a produção de uma vontade que é doadora de sentidos. "Qualquer coisa pode ser verdade, desde que pronunciada com a entonação certa”.
No prólogo de Para além do Bem e do Mal, Nietzsche, fala das tentativas “plebéias” de conhecer a natureza das coisas. Para iniciarmos essa análise, é importante entender um pouco a formação das palavras para que possamos estranhá-las no que elas têm de perigo. Ver sedução como Verfübrung que normalmente é traduzido por “sedução”, tem um sentido literal de “des-caminhamento”. O prefixo ver-denota “erro” ou “desvio” neste caso (como nosso des), modificando o substantivo Fübrung (“condução”, do verbo “conduzir”). A versão tradicional resulta bem apropriada, se tivermos em mente o sentido do verbo seducere, em latin: “conduzir para o lado, desviar”. Seduzir, portanto deixa de ser conduzir para o lado, desviar e toma o sentido de erro. Seria-nos apavorante tentar imaginar o quanto já se investiu de energia produzida pelos esforços de milhões de seres viventes para alimentar a saga interminável do pensamento plebeu que um dia sentiu a possibilidade de assenhorear o poder, nas mãos dos príncipes. Tal foi seu afã que querendo fugir dos conhecimentos anteriores buscaram suas verdades para a natureza das coisas. Numa pretensa volta ao conhecimento grego contaminou-se com a vã pretensão da busca da verdade. De que a terrível seriedade, a desajeitada insistência com que até agora se aproximaram da verdade. Foram meios inábeis e impróprios... (para além do bem e do mal. p. 7 Prólogo). Pouco bastava, segundo Nietzsche, “para constituir o alicerce das sublimes e absolutas construções filosofais que os dogmáticos ergueram – alguma pequena superstição popular de um tempo imemorial (como a superstição da alma, que, como superstição do sujeito e do Eu, ainda hoje causa danos), talvez algum jogo de palavras, alguma sedução por parte da gramática, [1] ou temerária generalização de fato muitos estreitos, muito pessoais, demasiado humanos. A filosofia dos dogmáticos foi, temos esperança, apenas uma promessa através dos milênios: assim como em época anterior a astrologia, a cujo serviço talvez se tenha aplicado mais dinheiro, trabalho, paciência, perspicácia do que para qualquer ciência verdadeira até agora: a ela e suas pretensões “supraterrenas” deve-se o grande estilo da arquitetura na Ásia e no Egito”.
Há nessas palavras um sentimento de estarmos vivendo como herdeiros de um pesadelo o qual temos de estar em vigília. É preciso preocuparmo-nos com essas formas de construções culturais que se colocam em oposição à vida terrena e criam uma verdade perversa que tenta aniquilar tudo que temos de nós mesmos, ou seja, nosso saber como criação de vida, de encanto, de mirábilis. Ao investir contra o miraculus o pensamento moderno e plebeu tenta a todo custo aniquilar nosso poder de maravilhamento, colocando-o no mesmo nível das superstições e o considera como fruto do mundo do sensível. Se havia, na Idade Média, o maravilhamento como fruto da poética humana, como sua cultura produzido em seu funcionamento cotidiano, a igreja injeta um teor aniquilante ao traduzir esse ato poético e artístico do ser como criação um teor que anula o aspecto interpretativo da busca da essência da vida. Ao introduzir o entendimento de que as maravilhas são dádivas de Deus, transforma essa arte em milagre, ou seja, Miráculus, deixando de ser nesse caso uma criação cotidiana e passa a anular esse espaço fazendo entender a essência como algo das alturas que depende de um ser supremo. A alma do povo passa a ser a alma suprema como sua matriz criadora. Tal qual na Ásia e no Egito despenderam esforços descomunais para a edificação de um eixo com o além mundo a sociedade moderna também tem sua edificação não tão distante dos construtores de torres e pirâmides. Nosso faraonismo filosófico está presente e, seríamos ingratos com aquelas culturas se não admitíssemos “que o pior, mais persistente e perigoso dos erros até hoje foi um erro de dogmático: a invenção platônica do puro espírito e do bem em si”. Esse modelo dogmático inaugura uma forma de conhecimento de tal forma que parece que há uma grande trajetória para a humanidade e para cada um atravessar e, que ela estará nos conduzindo do monstruoso, imperfeito à grandiosidade do ser. Todo o exercício poético fica relegado à condição de coisas erradas, falsas, monstruosas e outros adjetivos perniciosos”.(ibid. p. 08).Portanto, estar vigilante, para Nietzsche, significaria estar garantindo o espaço do cultivo não como um lugar clandestino tal qual ele tem funcionado. Esse lugar que necessitamos exercer, se dá através de apropriações, que funcionam, nas condições impróprias em que nos encontramos atualmente, onde o bombardeio midiático e escolarizado não dão trégua à instauração das formas poéticas do ser. Nessas circunstâncias, somente poderemos nos dotar da criatividade mantendo nosso campo interpretativo, através da transgressão como caçador em terreno alheio, para aludir ao de Michel de Certeau em A Invenção do Cotidiano. Estar atento ao funcionamento da nossa característica de produção da vida, em sua forma artística foi e continua sendo a de vigília com que cada ser exerceu e ainda exerce para pensamento garantir a cultura como cultivo, criação.
Por tudo isso, é que precisamos estar atento e forte, para que não nos deixemos transformar em uma cultura que cultua uma verdade estática e imutável que tenta sobrepor-se ao pensar descontínuo. Ao invés disso, devemos sentir o prazeirar-se na criação aceitando sua desmontagem, como fazem as crianças com seus castelos de areia. Para tanto se necessitou por a verdade de ponta-cabeça e negar sua” luta contra esse tipo de devir humano, que tomou proporções mundiais, pois esse tipo de conhecimento arrogando-se como caminho único da humanidade, tomou formatos diferentes de uma mesma fonte: poderíamos dizer, como Nietzsche, que uma forma platônica de um saber ascético, emergiu na Europa através de um modelo platônico para o povo, ao instaurar-se no cristianismo eclesiástico, que transforma obra humana em coisa fora dele. Que transforma a alma humana fruto de seu cultivo cultural em coisas de uma alma suprema que o antecipa. Ao transformar essa redução da criação humana em estilo de vida, tentou destruir nossa riqueza maior que é nossa alma criadora dos sentidos culturais. Isto fez com que em dois momentos, as várias sociedades do mundo sofressem seus reveses. Por isso é que Nietzsche afirmava que “a luta contra Platão, ou para dizê-lo de modo mais simples e para o ‘povo’, a luta contra a pressão cristã-eclesiástica de milênios – pois cristianismo é platonismo para o “povo” – produziu na Europa uma magnífica tensão do espírito, como até então não havia na terra: com um arco assim teso pode-se agora mirar no salvos mais distantes”.(ibid.p.8).
Para um estudo futuro da produção historiográfico do passado brasileiro é importante que saiamos do lugar comum de sua leitura e passemos a um estudo do sistema de pensamento que construiu os modelos teóricos que compuseram nossa verdade sobre o passado e formou nosso sentido via um ensino escolarizado.
Diferentemente de estarmos entendendo como dois acontecimentos distintos, a forma platônica de conhecimentos estendeu seus tentáculos para o mundo através: primeiro com o movimento jesuíta e depois as tentativas de expansão do movimento da ilustração democrática. Seria aí nesse suceder de formas diferentes de uma mesma repetição que poderíamos estar atentando em nossos estudos do passado colonial. Não devemos a partir de um pensamento abstrato estudar o concreto e sim, pelo contrário partirmos do concreto para estudar as abstrações que possibilitam pensamentos. Por essa via estaríamos estudando como, tanto o jesuitismo quanto o investimento laico do período, sob a regência do pensamento que investiu o domínio português, principalmente com a expulsão dos jesuítas e a imersão, a partir de 1750, da fase, conhecido como período pombalino. Portanto devemos repensar o conceito de poder e vê-lo como fruto de um saber que determina nossa forma de conhecer, de ler, de sentir e de agir. Logo poder é aquilo que determina nossa forma de exercício do viver.[1] Obs. ver sedução como Verfübrung que normalmente é traduzido por “sedução”, tem um sentido literal de “descaminhamento”.
O prefixo ver- denota “erro” ou “desvio” neste caso (como nosso des), modificando o substantivo Fübrung (“condução”, do verbo “conduzir”). A versão tradicional resulta bem apropriada, se tivermos em mente o sentido do verbo seducere, em latin: “conduzir para o lado, desviar”.



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