Wednesday, November 15, 2006

Vigilância e Punição - Odemar Leotti

A vida necessita da morte do outro. A morte é pro dada um vivente algo repugnante e auto-repulsivo: necessita, por esse motivo, cada vez mais ser silenciada, mas não excluída. Para que falemos da morte, precisamos nos abster do seu sentido mais corriqueiro, ou seja, não entendê-la como algo essencial e sim como apropriações, tidas, entendamos, como sutis: matar com sutilezas partes cada vez mais invisíveis, milimétricas, singularidades ainda rebeldes ao saber predominantemente identitário. Capturar o que há de mais singular no corpo, o que há de mais estranho à harmonia do funcionamento normal, mesmo aqueles que se camuflam em fendas nos mais recônditos lugares. Nada pode tornar-se inóspito à sanha disciplinadora. Mesmo nos lugares mais invisíveis constituem-se marcas quadriculadoras do funcionamento corporal: dominar o corpo controlá-lo para que a punição, a sua morte, o seu suplício torne-se cada vez mais invisível, mais mínimo, para que cada “alma” aceite seu corpo profilático e higienizado por uma moral que “inclui”, tornando-o uma coisa especificada, identificada, passando a ter seu lugar demarcado no espaço, definida o mapa de seu deslocamento e repouso, ordenado seus passos, suas paradas, de tal maneira que ninguém precise coagi-lo. classificá-lo dentro de uma hierarquia espacial e temporal.
Foucault nos fala da pena não mais se centralizando “no suplício como técnica de sofrimento”, mas tomando como objeto a perda de um bem ou de um direito”. Dentro do contexto colocado por Foucault (p. 18 – Vigiar e Punir), onde afirma a questão do sofrimento aplicado ao corpo, poderíamos estender o entendimento sobre sofrimentos do corpo, como as suas perdas sutis, que passo a passo o funcionamento corporal vai abrindo mão de formas de liberdade e assumindo posturas produzidas pelo controle disciplinar. Porém essa forma poderia ter sua emergência num dado momento em que o aparelho coercitivo passasse a tornar-se obsoleto.Mais que sancionar a infração o que importa é “controlar o indivíduo”, neutralizar o que tem de perigoso em suas formas de agir.
Foto:www.bifurcaciones.cl/002/art1/Pan%F3ptico%20de%20Bentham.jpg

1 Comments:

Blogger Paulo da Vida said...

Caríssimo Odemar, boa tarde!

Fiquei gratamente impressionado com seu BLOG Poder.

Tanto, que até peguei um dos textos e enviei para os amigos de minha lista para convidá-los.

PARABÉNS!

Por tudo. Não apenas pela qualidade e brilhantismo dos textos produzidos, mas, também, pela escolha dos temas abordados. Um primor!

Fácil acompanhá-lo em razão dessas qualidades e de sua elegância ao escrever, que já faz de mim, tempos já, leitor assíduo de suas digas.

Continue, já que nos enriquece.

Não são elogios vagos que aqui faço.


Apenas, constatação.

Grande abraço e o meu muito obrigado!

6:42 AM  

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