Tuesday, December 19, 2006

FOUCAULT E A HERMENEUTICA DO SUJEITO

FOUCAULT E A HERMENEUTICA DO SUJEITO

Aula de 06 de janeiro de 1982


Em sua obra A Ordem do Discurso, Foucault fala da questão do desejo, e de sua entrada no ordem discursiva que está pronta para receber aqueles que se inserem neste mundo. O desejo, segundo ele, diz: “eu não gostaria de ter de entrar nesta ordem arriscada do discurso.(...) A instituição responde: ‘você não tem por que temer começar; estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está na ordem das leis; que há muito tempo se cuida de sua aparicção; que lhe foi preparado um lugar que o hora mas o desarma, e que, se lhe ocorre ter algum poder, é de nós, só de nós, que ele, só de os, que ele lhe advém’”. P. 7. vemos como as subjetividades humanas ao exercerem seus desejos, são na realidade efeitos de poder. Efeitos produzidos por um saber que detém uma positividade que lhe garante autoridade de fala. A questão do cuidar de si, passa pela redistribuição dos desejos de acordo com uma ordem discursiva imposta. Aí então às instituições cabe o papel de cuidar dessas objetivações do ser do discurso, do ser do conhecimento.
A questão dos cuidados de si: a presença das estruturas da espiritualidade no interior de uma filosofia que desde o cartesianismo, ou em todo caso desde a filosofia do século XVII, se buscava desprender destas mesmas estruturas. Eis aqui o que Foucault nos alerta em sua obra A Ordem do Discurso. Segundo ele, se quisermos entender a ruptura do pensamento ocidental não devemos nos primar no período renascentista e sim no século V ou IV antes da era cristã.
Tudo se passa como se, a partir da grande divisão platônica, a vontade de verdade tivesse sua própria história, que não é a das verdades que constrangem: história das funções e posições do sujeito cognoscente, história dos investimentos materiais, técnicos, instrumentais do conhecimento. P. 17

Foucault achava “que o tema da reforma do entendimento no século XVII é inteiramente característico dos laços ainda muito estritos, muito estreitos, muito cerrados, entre digamos, uma filosofia do conhecimento e uma espiritualidade da transformação do ser do sujeito por ele próprio. [1]P.38. Seria justamente essa ordem discursiva que permanece na formação dos enunciados que não conseguem impor esse desejo de ruptura. O conhecimento ao tentar fundar um ser laico, livre dos credos da cristandade funda-se através da forma de espiritualidade subjetivadora. Como disse Nietzsche, o homem não consegue se desfazer de sua sombra.

Entende Foucault que a partir de Kant, crê “que também aí veremos que as estruturas da espiritualidade não desapareceram, nem da reflexão filosófica nem mesmo talvez do saber”. Temos dois tempos que também nos fustigam ao tentarmos entender o pensamento moderno: o período anterior e a partir do século XVIII. Segundo nos afirma Foucault as estruturas da espiritualidade não se desfizeram, não desapareceram “nem da reflexão filosófica, nem do saber”. Essas formas estariam presentes, por sua vez, nos discursos liberal, marxista e para o desespero da intelectualidade do século XX, essas estruturas espirituais permanecem latentes e emergem continuamente nos enunciados daqueles que tentam, em vão, neles se agarrarem. Essa intelectualidade ainda é presente em obras que procuram dar uma resposta à trágica crise que afetou o mundo sob o signo da razão. [2] o grande problema do conhecimento hoje, não é o de encontrar uma maior ou menor subjetividade. O que precisamos é problematizar as formas discursivas que permanecem firmes na construção das subjetividades, que vem desde a crise da escrita como o dizer sobre as coisas e sua desaparição. Precisamos nos entender com uma forma de conhecer do mundo que separou conhecimento de vida.

Retomemos toda a filosofia do século XIX – enfim, quase toda... E veremos precisamente que seja desqualificado, desvalorizado, considerado criticamente seja, ao contrário, exaltado como em Hegel, de todo modo, porém, o conhecimento, o ato de conhecimento permanece ainda ligado às exigências da espiritualidade. Em todas estas filosofias, há uma certa estrutura de espiritualidade que tenta vincular o conhecimento, a ato de conhecimento, as condições deste ato de conhecimento e seus efeitos, a uma transformação no ser mesmo do sujeito. Afinal, não é outro o sentido da Fenomenologia do espírito. 38

Além dela, temos outras formas de conhecimento que determina as subjetividades, e que vem desse mesmo tronco, como o marxismo e o liberalismo. Como ficaria então o momento atual em que comumente vemos o Estado liberal totalmente sendo carcomido em sua integridade, tanto nos chamados países de primeiro mundo, quanto nos Estados liberais que se tentaram impor varrendo uma infinidade de formações culturais e conseqüentemente, culminando com a destruição de suas formas de cadeia alimentar, cada uma com seu engendramento peculiar. (vide a situação das sociedades indígenas, das formas sociais africanas, asiáticas, da Oceania, das ilhas polinésias e uma infinidade de pós-formações que, apesar de suas lutas de re-arranjos culturais são constantemente arruinados por novos modelos políticos econômicos).


Aula de 13 de janeiro de 1982

Período neoclássico: ,no florescimento da idade de ouro imperial (século I e II d C, 27 a.C. a 192 d. C.), chamado pelos historiadores de Alto Império.
27 a.C. a 14 d.C. Otávio César (Augustus). 14 d.C. a 68 dos claudianos. Tibério filho adotivo de Otávio César até Nero. 68 d.C. a 192 d. C. os Antoninos (Trajano, Adriano e Marco Aurélio).
Segundo traço do cuidado de si
“...o eu aparece tanto como objeto do qual se cuida, algo com que se deve preocupar, quanto, principalmente, como finalidade que se tem em vista ao cuidar-se de si. Por que se cuida de si? Não pela cidade. Por si mesmo. Quer dizer, a forma reflexiva organiza não somente a relação com o objeto – ocupar-se consigo como objeto – como igualmente a relação com o objetivo e com a finalidade. Se quisermos, uma espécie de autofinalização da relação consigo.” (104)
para Foucault “este é o segundo grande traço” que vai “tentar elucidar” nas suas próximas aulas.

Terceiro traço do cuidado de si
“...o cuidado de si não mais se determina manifestamente na forma única do conhecimento de si. Não, certamente, que este imperativo ou esta forma do conhecimento de si tivesse desaparecido. Digamos simplesmente que ele se atenuou, integrou-se no interior de um conjunto, um conjunto bem mais vasto, conjunto que está atestado, sobre o qual podemos fazer uma primeira e aproximativa demarcação indicando alguns elementos de vocabulário e assinalando alguns tipos de expressões.” (104)

bem mais que a uma atitude do espírito, epimélesthai refere-se a uma forma de atividade, atividade vigilante, contínua, aplicada, regrada, etc.



[1] FOUCAULT, Michel. Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fonte, 2004. p. 38.
[2] Cf. Husserl, Escola de Frankfurt e atualmente ainda permanente no desabafo de Manuel Casttels.

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