Thursday, December 14, 2006

HISTÓRIA PARA A VIDA OU A VIDA PARA A HISTÓRIA?



Odemar Leotti

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
Tem mil faces secretas sob a face neutra
E te pergunta, sem interesse pela resposta,
Pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
Ermas de melodia e conceito
Elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
Rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.[1]

Gostaria de iniciar este texto alertando para seu sentido um pouco misto de sistematização e aforismo. Sistematização por ser o autor produzido e coagido a produzir dentro de uma ordem, própria do pensamento moderno. Sempre nos somos cobrado para que tenhamos coerência, coesão, lógica, finalidade e ética. Nunca ouvimos alguém dizer de onde provém todo esse termo. Parece que existe uma qualidade oculta nos impondo formas e sujeitos falantes a afirmarem-se como pregadores desses termos. Portanto esse texto é o resultado de alguns estudos inacabados de diferentes autores que buscam entenderem-se como viventes e como orientadores de outros viventes. O que definiu minha busca de autores e o que os identificam é a preocupação que os angustiam: o lugar da produção dos saberes.
O que são os saberes. Como e em que condições dão suas produções. Qual papel que cabe a cada um na trama de suas produções. Esses saberes abrem-nos o mundo ou fecha-nos na redoma de um saber único, homogêneo de mundo. Esses saberes são produzidos para que nos alimentemos de vida, nós mesmo, ou devemos nos subordinar a seres supremos, que nos antecedem e que sempre nos definirão o certo e o errado? Esses textos pretendem discutir se os saberes são produções em ato e portanto assim sendo, a vida torna-se entendida como fruto do exercício de cada qual e em conjunção com os limites de cada cultura e da racionalidade produzida por cada uma? Ou ao contrário o exercício de cada forma de ser e, logo, portanto as formas do agir de cada ser, devem aguardar as orientações superiores e, portanto um saber hierarquizado que atende aos comandos de um lugar superior que nos aponta o que é correto pensar e o que não é correto pensar. Assim colocado, então seria, o saber tido como popular, o lugar dos saberes desviados, ou formas imperfeitas, cópias deformadoras da forma matriz, original. Seriam as formas culturais múltiplas, simples aparências, próprias daqueles que não possuem a cientificidade em sua forma de construção de conhecimento? Portanto necessitariam passar pelo aprendizado dos métodos de ensino que os ensinariam o verdadeiro saber que só se dariam por um caminho único e verdadeiro, graças à rigorosidade dos métodos científicos que teriam o papel de elevar o nível dos saberes “baixos”, ou populares? Para entender como esse mundo, que se divide em lugares de graus superiores, médios, fundamentais (onde se adquiririam, por certo os fundamentos produzidos em instancias de graus superiores). Necessitamos problematizar para melhor entender o pensamento ocidental, esse grande sistema de pensamento que foi assim formado e que determina nossa forma de ser, estar, viver, pensar, exercitar as formas do que entendemos como vida.
Será que sabemos como nos tornamos o que somos? Será que já paramos para pensar o que estamos fazendo de nós mesmos? Mais grave ainda. Será que já paramos para pensar o que estamos fazendo com os outros com o que fizeram de nós mesmos? Será que ao invés de pensarmos o que foi a história do passado ou como seria a melhor forma de transmitirmos essa história aos nossos alunos não seria importante perguntarmos a nós mesmos como foi produzido este passado? Como foi produzida a interpretação historiográfica sobre esse passado? Para quem foi escrita, como foi escrita, para que serve a história do nosso passado? Será que o conhecimento, e no nosso caso, o conhecimento sobre o passado deve estar a serviço da vida ou a vida, essa coisa tão rápida e tão doce, deve estar a serviço do conhecimento sobre o passado? A história desse passado deve alimentar a atividade criadora das pessoas para que elas possam dele se instrumentalizar para alimentar-se dela como se fosse fertilizante para criar. Para criançar-se sempre, ou seja, para que como se sempre mantivesse o elemento da criança e pudesse exercer sua experiência como ato de leitura para o desconhecido, para o estranho e daí nascer a vida como encanto? Ou será que a história deve ser fundada como um fardo a ser carregado pelas pessoas, como um castigo que fecha sua criação, suas criancices criadoras, sua necessidade de encantamento com a construção de moradas sobre o que era o nada? Será que a história não estaria trabalhando formas de conspiração contra a criatividade humana ao definir-se como um saber que fecha o mundo ao invés de agir como a chave do mundo? É isso que cada autor tratará em seu texto. A escolha foi produto de longo tempo de leituras, abandonos e voltas a esses textos. A decisão de fazer essa tipo de trabalho com meus textos inacabados deve ter sido fruto da fronteira em que vivemos hoje: uma fronteira própria dos quem foram educados no sentido de que a vida tem um apriori que a fundamenta e, uma finalidade que lhe trará a redenção. Essa moral que imagina anular os fluxos do vivenciar-se nas eternidades da vida como um aion[2], como um jogar o jogo, como nos afirmava o pensador grego Heráclito. Ao contrário o que nos restou como ensinamento? Um saber que se afirma na existência de origem essencial e que tudo que pensamos são deformações e que a forma como devemos pensar é a forma orientada por uma ponte que leva a uma auto-estrada do saber superior, a forma como o saber científico garante sua ostentação, fruto de uma moral pobre, uma moral que tira do homem seu ser guerreito, que salta e que debocha. Um ser leão que vive no limite da razão e a desafia. Só assim ele se exercita no espaço de seu viver sem o “tu deves”, e passa a viver na sua querência. Ao contrário disto, o que a modernidade ocidental presenciou a não ser a instalação de “dispositivos modernos de explicação da ciência”. Segundo Barbosa, em Tempos Modernos, prefácio da obra A Condição Pós-moderna, de Lyotard, a crise que hoje vivemos é fruto de um dispositivo de informação, ou de um saber que se quis único e dos fins últimos e que hoje cai pelos barrancos, fruto de sua corrosão. Preso que foi ao sistema de pensamento que ele próprio queria banir pagou o preço de levar as sociedade em sua multiplicidade a uma sensação de frustração em um tempo e depois a um olhar horrorizado. “Esse processo, fruto da corrosão dos dispositivos modernos de explicação da ciência, é muito apropriadamente designado por Lyotard pela expressão ‘deslegitimação’. No entanto, ele não se dá apenas em função da corrosão do ‘dispositivo especulativa’ (Idealismo alemão, Hegel) ou do ‘dispositivo de emancipação’ (Iluminismo, Kant, Marx). Essa corrosão[3]”. Essa prisão a um pensamento ascético, construiu uma ilusória liberdade, que não se desfez da escravidão plebéia, a qual, imaginava estar se libertando. Este elemento, inevitavelmente foi corroído e contribuiu para o que Nietzsche entendeu como o “niilismo europeu”. Ao invés de uma vida produzida pela abundancia dos fluxos, uma vida onde a leitura produtora da vida fica obstaculizada pelo seu fechamento a um saber miracular[4] e não maravilhador, como é o da criança. Ou como nos aponta Deleuze em seu texto Platão e os simulacros: a cópia do saber original em sua essência é permitida, desde que produza semelhanças desse centro irradiador do saber em detrimento da criação da diferença, do novo. O novo não poderia passar da identificação assemelhada ou aparecendo como a representação do ser essencial. Ou melhor, dizendo, o saber dever efetivar-se preso a um sistema de pensamento de forma que a criação humana nunca desligue-se de seu centro original, essencial. Criar seria levar o grande saber original a todos os recantos do mundo e ensinar que o novo não pode deixar de ser o semelhante do Mesmo. A diferença, fruto da interpretação, nesse sentido deveria ser a semelhança do saber original ou seria considerado simulacro e então deveria ser excluído. Portando o conhecimento nesse sentido deveria ser fruto de um sentido interior, projeção das alturas, da Grande Luz irradiadora de verdade original, cópia, aparência da matriz original e a essência que nos predetermina. O simulacro seria a cópia da cópia e, portanto estaria sendo guiado por forças externas ao sentido interior e com isso estaria causando desvios à condução do sentido certo, original, fruto da essência que dever ser copiada para que se estenda a todos os rincões do mundo. O saber simulacro ou o saber que diferencia seria como um saber criado já com contaminações das impurezas do mundo, mundo esse considerado como lugar do erro, das falsificações, do pecado, da irracionalidade.
Foi nesse sentido que se construiu o pensamento ocidental moderno. Essa forma do Mesmo e do controle sobre tudo que pudesse deformar sua originalidade permaneceu por dois milênios e meio, sendo apropriado por várias contingências históricas até chegar a nossos dias. Hoje a tentativa de dar oportunidade ao lugar da criação dos alunos não seria fruto da crise desse paradigma? Eis o que pretendo colocar nesse trabalho. Eis porque resolvi colocar a público o que venho convivendo na solidão entre os autores que leio, os sistemas de pensamento que os constroem e as subjetividades que provocaram em mim. O ato de dedilhar o teclado foi o momento de minha autoria. Não sou origem, portanto, de meu saber e mais concretamente, não sou origem do que vou lhes apresentar. As formas subjetivantes que se apresentam são produtos de dois modelos de leituras, das quais me encontro em suas fronteiras. Trabalhos sistemáticos e aforismos de interpretações desses autores. Enquanto não se forma em minha subjetividade, produtora de conhecimento, um lugar novo, fico nessa crise de paradigmas. Ficamos no entremeio da poesia, que conforme afirma Hölderlin, faz a vida se dar por fluxos, então devemos escrever por ordem das aflorações, como a água se dá por jorros, por gozos, por ejaculação de palavras como filha do orgasmo poético. Se não é da forma do jogo, como seria a leitura: presa ao texto. Quando lemos, o fazemos de dentro de nosso texto com a leitura para outro texto. Devemos manter nosso texto, nossa palavra, presos a uma sistematização, que mascarada na sua rigorosidade metodológica, na verdade poderia estar funcionando como um dispositivo de controle do pensar? Impedir o livre pensar, impedir o pensar por fluxos, não seria manter o pensar, preso a um centro controlador, para que não exista a diferença produzida pelo jogo poético da leitura aberta a diferenciação de um texto em contaminação como o outro texto. Não seria dois lugares de leitura, e juntos propiciando um salto para fora do presente. Uma leitura que vai de um não mais saber a um saber por vir, como um salto no jogo da incerteza, o jogo de aion? Portanto vivemos este momento.
Nas universidades cansamos de ouvir que os acadêmicos não sabem escrever um texto, como se houvesse textos originais, fundamentais e os leitores como tabula rasa. Parece que não sabemos ainda lidar com diferentes textos. Parece que nos exercitamos por um poder fruto de um saber binário do certo e do errado, do verdadeiro e do falso. O que estaria acontecendo não seria fruto de uma sistematização, que perdeu sua função na formação das pessoas, mas, ao contrário do Édipo, não quer furar seus próprios olhos, como nos mostra Kundera, no livro Insustentável leveza do ser? Será que não está na hora de colocarmos em dúvida esses aparatos que guiam nossa arrogância do saber? Vivemos um tempo de embate entre a certeza corroída e a dúvida que abre a possibilidade do pensar como criança. Ou como afirma Veiga-Neto: “Vivemos em um tempo que não é mais o que era antes e nem ainda é o outro tempo”.
O ato de escrever não pode ficar preso a uma burocracia mascarada de metodologia e com isso impedir o engendramento da arte da escritura. Assim não formamos escritores e sim apenas escreventes. Não podemos ficar limitados a ensinar a escrever sobre algo, mas sim ensinar a arte da escritura, do escrever e como afirma Barthes, escrever e ponto final. Como nos afirma Benatti,

... é necessário acrescentar que, nessa distinção entre escrevência e escritura, sem dúvida o grosso dos historiadores contemporâneos, formados e formatados pela disciplina acadêmica, estariam classificados na primeira categoria, a dos escreventes. E isso não simplesmente por falta de talento individual dos historiadores para a bela escrita, mas, mais profundamente, em decorrência de toda uma cultura cientificista que tem, ela própria, uma longa história a ser pesquisada.[5]

Vivemos em um tempo de crise da Razão Transcendental e não conseguimos nos instituir, não em uma nova verdade, mas no lugar da criação, onde se dá o encantamento que faz emergir a vida: esse paraíso proibido. Eis o que forma minha autoria.



Duclós e o Nietzsche de para além do bem e do mal

Algo de inexprimível no que a solidão revela.

Quando nos atentamos para o que trabalhar sobre o passado, nos deparamos com manuais que ao tomarem formas positivadas, instituem-se como verdades garantindo certa legitimidade aos sentidos às relações nas contingências em que se estabelecem. Para tanto não são dados de formas sucessivas, dentro de um esforço intelectual, onde um olha por sobre os ombros dos que sucedem. Pelo contrário, essas positividades se dão a partir de práticas discursivas que obedecem um conjunto de regras em sua emergência e a leis funcionas que garantem a escolhas de uns em detrimento da exclusão de outras formas historiográficas. Em grande parte dos estabelecimentos de ensino, a disciplina história fica totalmente desvinculada da discussão sobre o fato dela ser uma operação historiográfica e, como tal, é fruto do conjunto de regras e leis que regem sua aparição em detrimento de outras operações e, principalmente na maioria das vezes tramando contra a possibilidade poética, contra o elemento criador que poderia estar estabelecendo uma cumplicidade desses estudantes com a memória como elemento cultivador de uma cultura propriamente de seu local de vivenciamento.
Os fatos históricos nos aparecem como que uma verdade sobre o passado. Porém são produtos de interpretação de cada historiador. Por seu lado cada historiador vive a contingência de seu tempo. As análises que em sua maioria tornam-se manuais de crítica historiográfica no Brasil, referenciam suas análises dos momentos de sua produção, utilizando-se de noções como, escola, época, livro, obra, autor, visões, mentalidade, homem do seu tempo, corrente de pensamento, etc. Fica assim presa a este limite as chamada crítica historiográfica. São calcadas em unidades discursivas, tidas como disciplinas científicas, e materializadas como economia, sociologia, antropologia, psicologia etc, que se limitam a conseguir questionar nessas produções historiográficas, elementos ideológicos, utilizando para isso, conceitos inteiramente presos a essas unidades discursivas.
Também existem autores que partem de análises pós-estruturalistas colocando seu aspecto interpretativo a partir das regularidades discursivas componidoras de campos discursivos que por sua vez possibilitam a emergência das unidades discursivas e as estruturas literárias que definem as suas narrativas. Terminam, com esta forma de abordagem, incluindo um analista que trabalha fora do sistema de pensamento, como se estivesse esforçando para o desvelamento de um espírito fenomenal, que está fora de sua perspectiva metodológica. Isso resulta na inclusão das análises pós-estruralistas no mesmo rol das leituras realistas, fundamentalista, que estes autores querem desconstruir. Com isto, anula, neutraliza os efeitos destes autores, como forma de torna-los dentro dos mesmos padrões, pela pressa de refutação de seus trabalhos. Dentro dos limites dos meus estudos procurarei socializar com a comunidade acadêmica e com os profissionais de ensino de história um pouco do que vêm ocupando meu tempo, minhas angústias, minhas inquietações. Lembrando Foucault, escrevo por não saber, escrevo para me entender. Nesse caso escrevo para me entender com todos que se interessem por edificar uma outra forma de vida que eleja a palavra como chave para a vida como obra de arte. Segundo Veyne, "não existem fatos, somente interpretações". Para Duclós: “A interpretação é uma atividade que expressa a força criadora de quem interpreta, um movimento que não se conclui, mas se prolonga infinitamente, aonde se pode provar tanto uma coisa quanto o seu contrário”, sendo ambas a produção de uma vontade que é doadora de sentidos. Como afirma o autor: “Qualquer coisa pode ser verdade, desde que pronunciada com a entonação certa”.[6]
DUCLÓS nos chama a atenção, em sua análise de Para além do bem e do mal, de Nietzsche, para as seguintes considerações. Para além do fato de entender a sedução como o lugar do descaminhamento, seria importante atentarmos para o entendimento de que a sedução faz parte dos jogos da vida que nos leva à paixão por algo que mexe com nossa emoção. Logo estamos tratando de algo que se situa nos domínios do corpo, do sensível. A chamada para a razão sofre um diferenciamento de como os gregos trabalhavam a condução da vida na pedagogia produzida pelas Tragédias Gregas.
Prólogo
Com o enxotamento dos sofistas dá-se início entre os gregos o período de um saber ascético. Essa forma de saber será melhor entendida quando estarmos comentando e texto de Gilles Deleuze, Platão e os simulacros. Rompido com os sofistas que viam nas palavras o lugar da construção de nosso entendimento de mundo, o platonismo funciona a partir de uma ordem de linguagem predominante no seu tempo de que o tempo é circular onde o futuro representaria a Decadência. Para os gregos dessa época, o tempo era de agonia. Vivia-se agonisticamente o presente, e ao passar por uma crise de contemporaneidade, agiam de forma nostálgica, ou seja, sentiam nostalgia pelo passado. Como o grego desse tempo via o futuro como decadência, o nomeavam a partir de minerais que representavam a degeneração na qualidade do mundo. Ao ver o mundo como biológico, viam-no como sofrendo de um processo degenerativo. Iam da Idade de Ouro para a Idade de Prata, Bronze, Ferro, etc,. portanto em suas crises do presente sonhavam em voltar à Idade de Ouro. Nota-se neste caso uma negatividade da busca do futuro como saída para a crise da contemporaneidade para os gregos do período vivido por Platão.
Parmênides via que o grande fator dessa possível degeneração do mundo seria o mundo da opinião, e que a saída seria um único caminho da forma de entender o mundo. Não mais o das palavras à mercê das interpretações. Essa forma aberta à exterioridade das interpretações fazia com que a natureza do mundo ficasse exposta à multiplicidade interpretativa e portanto sofreria sempre desvio quanto à verdadeira forma de conhecimento da natureza do mundo. Portanto a melhor via do sentido do mundo seria a Razão verdadeira e não a forma como aparecia no mundo da opinião ou dos homens de duas cabeças.
Das tentativas “plebéias” de conhecer a natureza das coisas

Das tentativas “plebéias” de conhecer a natureza das coisas
Voltando a problematização do termo sedução procuraremos ver sedução como Verfübrung e que normalmente é traduzido por “sedução”, é interessante entender que nesse caso sedução tem um sentido literal de “descaminhamento”. O prefixo ver- denota “erro” ou “desvio” neste caso (como nosso des), modificando o substantivo Fübrung (“condução”, do verbo “conduzir”). A versão tradicional resulta bem apropriada, se tivermos em mente o sentido do verbo seducere, em latin: “conduzir para o lado, desviar”.
Seria-nos apavorante tentar imaginar o quanto já se investiu de energia produzido pelos esforços de milhões de seres viventes para alimentar a saga interminável do pensamento plebeu que um dia sentiu a possibilidade de assenhorar o poder nas mãos dos príncipes. Tal foi seu afã, que querendo fugir dos conhecimentos anteriores buscaram suas verdades para a natureza das coisas. Numa pretensa volta ao conhecimento grego contaminou-se com a vã pretensão da busca da verdade. De que a terrível seriedade, a desajeitada insistência com que até agora se aproximaram da verdade. Foram meios inábeis e impróprios...(para além do bem e do mal. p. 7 Prólogo). Pouco bastava, segundo Nietzsche,

...para constituir o alicerce das sublimes e absolutas construções filosofais que os dogmáticos ergueram – alguma pequena superstição popular de um tempo imemorial (como a superstição da alma, que, como superstição do sujeito e do Eu, ainda hoje causa danos), talvez algum jogo de palavras, alguma sedução por parte da gramática, [7] ou temerária generalização de fato muitos estreitos, muito pessoais, demasiado humanos. A filosofia dos dogmáticos foi, temos esperança, apenas uma promessa através dos milênios: assim como em época anterior a astrologia, a cujo serviço talvez se tenha aplicado mais dinheiro, trabalho, paciência, perspicácia do que para qualquer ciência verdadeira até agora: a ela e suas pretensões “supraterrenas” deve-se o grande estilo da arquitetura na Ásia e no Egito.

Há nessas palavras um sentimento de estarmos vivendo como herdeiros de um pesadelo o qual temos de estar em vigília . É preciso preocuparmo-nos com essas formas de construções culturais que se colocam em oposição à vida terrena e criam uma verdade perversa que tenta aniquilar tudo que temos de nós mesmos ou seja nosso saber como criação de vida, de encanto, de mirábilis. Ao investir contra o miraculus o pensamento moderno e plebeu tenta a todo custo aniquilar nosso poder de maravilhamento, colocando-o no mesmo nível das superstições e o considera como fruto do mundo do sensível. Tal qual na Ásia e no Egito despenderam esforços descomunais para a edificação de um eixo com o além mundo a sociedade moderna também tem sua edificação não tão distante dos construtores de torres e pirâmides. Nosso faraonismo filosófico está presente e, seríamos ingratos com aquelas culturas se não admitíssemos ... que o pior, mais persistente e perigoso dos erros até hoje foi um erro de dogmático: a invenção platônica do puro espírito e do bem em si. Esse modelo dogmático inaugura uma forma de conhecimento de tal forma que parece que há uma grande trajetória para a humanidade e para cada um atravessar e que ela estará nos conduzindo do monstruoso, imperfeito à grandiosidade do ser. Toda o exercício po-i-ético fica relegado à condição de coisas erradas, falsas, monstruosas e outros adjetivos perniciosos. Parece que todas as coisas grandes, para se inscrever no coração da humanidade com suas eternas exigências, tiveram primeiro que vagar pela terra como figuras monstruosas e apavorantes...(ibid. p. 08).
Portanto, estar vigilante, para Nietzsche, significaria estar garantindo o espaço do cultivo não como um lugar clandestino tal qual ele tem funcionado. Esse lugar que necessitamos exercer através da transgressão como caçador em terreno alheio, para aludir ao pensamento de Michel de Certeau A Invenção do Cotidiano, foi e continua sendo a forma de vigília com que cada ser exerceu e ainda exerce para garantir a cultura como cultivo, criação, tudo isso para que não nos deixemos nos transformar em uma cultura que se limite a cultuar uma verdade estática e imutável que tenta sobrepor-se ao pensar descontínuo, ao invés de prazeirar-se na criação, aceitando sua desmontagem, como fazem as crianças com seus castelos de areia. Para tanto se necessitou por a verdade de ponta-cabeça e negar como sua ... a perspectiva, a condição básica de toda vida, falar do espírito e do bem tal como fez Platão... . A luta contra esse tipo de devir humano tomou proporções mundiais, pois esse tipo de conhecimento arrogando-se como caminho único da humanidade tomou formatos diferentes de uma mesma fonte: poderíamos dizer, como Nietzsche, que uma forma platônica de um saber ascético, emergiu na Europa através de um modelo platônico para o povo, em sua forma cristã. Isto fez com que em dois momentos, as várias sociedades do mundo sofressem seus reveses. Por isso é que Nietzsche afirmava que ... a luta contra Platão, ou para dizê-lo de modo mais simples e para o “povo”, a luta contra a pressão cristã-eclesiástica de milênios – pois cristianismo é platonismo para o “povo” – produziu na Europa uma magnífica tensão do espírito, como até então não havia na terra: com um arco assim teso pode-se agora mirar nos alvos mais distantes. (ibid. p. 8).


[1] Carlos Drumonnd Procura da poesia, in A Rosa do Povo.

[2] Quando Larrosa fala de uma liberdade libertada, ele fala do “ ‘salto’, no qual abre-se a ‘região essencial da liberdade’, esse território ou essa região fica assinalada com a criança que joga, da sentença de Heráclito. Primeiro se nomeia o jogo: ‘Graças a este salto, o pensar chega à amplitude daquele jogo no qual está posta nossa essência de homens. Só na medida em que o homem é levado a este jogo, e posto ali em jogo, é capaz de joga-lo verdadeiramente, e de continuar estando em jogo’(...). Que diz Heráclito do aion? O fragmento 52 reza: a sina do ser é ser uma criança, que joga, que joga o jogo de tabuleiro; de uma criança é o reino. A sina do ser: a criança que joga.. assim é que também há crianças grandes. A criança maior, real graças à suave justeza de seu jogo, é aquele mistério do jogo, ao qual o homem e seu tempo de vida vem levados, no qual sua essência vem posta em jogo (fica ao azar e à ventura. Cf. LARROSA, Jorge. Libertação da Liberdade. In Nietzsche e a educação. Belo Horizonte: Autentica, 2002. P. 108.
[3] Cf. LYOTARD. Jean François. A condição Pós-Modena. 7ª edição. (Artigo de introdução de Vilmar do Valle Barbosa). Rio de Janeiro: José Olímpio, 2002. p. x.
[4] neste caso Jacques Lê Goff mostra como na Idade Média, o saber clerical impôs-se sobre o saber religioso. Segundo este historiador, na cultura considerada como pagã, como bárbara e não cristianizada, a vida era produzida pela salto, pelo jogo do olhar para a vida como mistério, ou seja, pelo olhar religioso, no sentido de relicare, religar-se ao mundo, no qual a ligação primeira é através da relação fisiológica. Esta forma poética da vida como um fabricar sobre o mistério, foi substituída, pelo platonismo para o povo, como afirmou Nietzsche, ou seja, pelo pensamento cristão, o que era religioso, ou uma segunda ligação do que já numa primeira instancia se ligava fisicamente, o pensamento cristão desloca essa potência fruto da poética para o que ela entendia como o Mirábilis, fruto de uma alma suprema, absoluta. Arrancava-se do homem nesse momento sua forma guerreira de lutar pela vida e aniquilava-o, transferindo para um Ser Supeiro, toda sua vontade de potência. O que fizeram os dispositivos especulativos de Hegel ou os dispositivos emancipadores de Kant e Marx, a não se transferir novamente a potencia do aion, da vida como jogo, para uma busca de perfeição, de eternidade fora do nosso tempo, anulando nosso saber considerado profano, pecador, errado, não científico. Como disse um pensador: “eles adoram a razão como os cristãos adoravam a Virgem Maria. Cf. LE GOFF, Jacques. O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval.Lisboa: edições 70, 1985. capítulo O maravilhoso no Ocidente Medieval (ler todo).
[5] BENATTI, Antonio Paulo. História, ciência, escritura e poítica. In
[6] Obs. Esta nota foi tirada na Internet. Não estou com a fonte no momento.
[7] Obs. ver sedução como Verfübrung que normalmente é traduzido por “sedução”, tem um sentido literal de “descaminhamento”. O prefixo ver- denota “erro” ou “desvio” neste caso (como nosso des), modificando o substantivo Fübrung (“condução”, do verbo “conduzir”). A versão tradicional resulta bem apropriada, se tivermos em mente o sentido do verbo seducere, em latin: “conduzir para o lado, desviar”.

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