Thursday, December 14, 2006

REPENSAR O ENSINO DE HISTÓRIA
Por uma leitura de das suas bases epistemológicas
Odemar Leotti[1]

Às vezes, ou sem querer ser generalizante, quase sempre, ao nos faltar algo que nos torne útil a um modelo de sociedade do homem cativo, somos excluídos e asilados em algum lugar que nos afaste da ordem que torna o que os homens imaginam a vida normal. Assim acontece com a loucura, com a criança, com a velhice, com os homossexuais, com os negros, com os índios e muitas outras formas denunciantes do descontínuo do ser, mais sutis que não conseguimos ver seus exílios em vida, como a mulher com relação ao homem e à sua participação no coletivo ou na família, a criança e sua voz sempre silenciada e pensada por uma infância como produto de homens letrados: cristianizados e racionalizados.
Ao colocar ambas características buscamos compreender esses problemas sociais, não unicamente presos a uma leitura sociológica. Pois as ciências, por sua vez, são também produtos da invenção do século XIX, tempo contingencial em que foi fundada e teve o homem como seu objeto de estudo. Entender esses problemas relacionados à exclusão daqueles que não se enquadram em uma ordem homogeneizadora da sociedade seria o mesmo que retirar tudo aquilo que põe em risco o funcionamento de uma sociedade que só consegue se entender dentro de uma ordem racionalizante em busca de sua determinação histórica. Para se totalizar necessita ver o homem em sua busca de uma racionalidade que se daria na história ao adquirir sua totalização, e com isso procura entender as diferenças como desvios a serem superados e corrigidos. De forma hipócrita esse esquema de sentido torna-se ordenador e excludente de tudo que denuncia sua (im) possível continuidade. Aqueles que não podem, por diversos motivos, incluírem-se em sua onda rítmica de progresso, passam a receber um lugar na especificidade taxonômica dos seres e até pouco tempo são tidos pelos limites da análise das ciências modernas como casos irreversíveis. Isto feito criam-se instituições que cuidem de seus exílios. É preciso reverter a narrativa ocidental no que ela tem de platônico. Reverter seria o mesmo que desconstruir o sentido da vida, preso a um sistema de pensamento, que aponta para a busca da essência do ser.
Quando nos aterrorizamos com as atrocidades dos regimes totalitaristas, não procuramos entender que eles surgiram em contraponto a uma sociedade que consideraram como produtoras de desvios na condução da humanidade. A forma nefasta tal qual conduziram suas ações não pode ser motivo de indulgência para com as formas que se produzem nas sociedades tidas como democráticas. Se no regime nazista excluíram, de forma hedionda, aqueles que por serem, o que hoje consideramos como deficientes, tidos por eles, como produto da degeneração humana, por nossa vez simplesmente os asilamos, os segregamos, os depositamos. Parece que há algo de triste em nossa sociedade motivado por nossa incapacidade de entender as diferenças componidoras da formação humana.
O pensamento platônico buscou sua fonte de criação, atado ao saber parmenidiano próprio de uma cultura grega do século V antes de Cristo. Para a contingência histórica em que viveu Parmênides, havia uma prática discursiva que entendia o mundo visto a partir de um tempo circular. Tendo o biológico a lhes mostrar a mortalidade dos corpos, viam o futuro como decadência material, e portanto esse mundo tal como um corpo material que ele é, estaria se acabando e que era preciso um saber racional que retomasse essa rota temporal para evitar seu cataclisma. Instituir uma forma de saber que evitasse sua degeneração passou a ser o modelo de conhecimento sobre as coisas do mundo. Para Parmênides, o mundo da opinião era o mundo do homem de duas cabeças, que poderia estar traduzindo um mundo em que ocorria a interpretação e as apropriações criadoras das autorias construtoras da diversidade criadora do saber sobre as coisas desse mundo.
O saber platônico, em sua obsessão da busca ascética, discordava com o saber dos sofistas que entendiam a palavra como forma de construção das objetivações sobre as coisas e as tornando formas de pertencimento a esse mundo. Viam neles um perigo à busca da matéria primordial que fazia funcionar a vida. Ao ver isso, viam nas interpretações sobre o mundo o lugar do aparecimento do que já existia como forma material precedendo o acontecimento do mundo. Em suma via as criações das verdades sobre o mundo pelas palavras como formas aparentes do que já existia como essência anteriormente. Platão foi o produtor desse constructo e Aristóteles deu-lhe outro formato.

Deleuze e a questão da essência e da aparência.

Deleuze dá uma grande contribuição a essa problematização em sua obra A Lógica do Sentido. Em seus estudos sobre a lógica do sentido, busca por em debate esse saber que elege a essência como um apriori, uma originalidade que não pode ser decomposta, que não aceita os paradoxos. Tentar uma reversão da busca da essência seria para Deleuze por as claras, através da desconstrução da estrutura e de sua unidade literária, do enunciado platônico que contribuiu para as apropriações que instituíram valores morais encarregados de excluir ou segregar a um lugar aristotélico-classificatório tudo que colocasse em risco a perfeição original e a busca da verdade final. A forma de progresso da humanidade entrava em choque com tudo que colocasse em cheque sua lógica de sentido. Portanto para Deleuze importava encurralar a “motivação do platonismo. Torna-la manifesta à luz do dia”. Entendia então motivação como sendo a distinção entre a coisa mesma e suas imagens “. Deleuze, inspira-se em Nietzsche na busca de sua reversão do platonismo”.

Nietzsche assim define a tarefa de sua filosofia ou, mais geralmente, a tarefa da filosofia do futuro. Parece que a fórmula quer dizer: a abolição do mundo das essências e do mundo das aparências (...) Reverter o platonismo deve significar, ao contrário, tornar manifesta à luz do dia esta motivação, “encurralar” esta motivação – assim como Platão encurrala o sofista. (...) A essência da divisão não aparece em largura, na determinação das espécies de um gênero, mas em profundidade, na seleção da linhagem. Filtrar as pretensões, distinguir o verdadeiro pretendente dos falsos . [2]






O discurso da sensatez e o que ele tem de moral classificatória.

Ao ser vítima de uma intervenção no seu sonho, na sua embriaguez o discurso da sensatez, este carregado de moral, faz do homem um andarilho na busca do nada e imolador de seu tempo presente através de atualizações carregadas de filosofias desencarnadas. Ao pensarmos em História não devemos desgarrá-la de sua função para a existência dos homens. Tal como a vemos hoje nas escolas, nos dá um certo pavor de senti-la como algo morto e distante do sentido cotidiano da comunidade onde se instala. É uma história totalmente desencarnada e torna-se um fardo para os alunos que somente a exercitam sob as ameaças de reprovação. Ao se sentirem livres dos muros da escola as lançam fora e voltam à sua embriagues, que tão belamente os caracterizam. Sim, isso se dá ao saírem dos muros da prisão que são obrigados a se inserirem caso para se tornarem homens cativos e caminhantes desse constantemente reinventado rebanho e seus pastores. Tentam torna-los servos de um ser que se diz superior a tudo que se crie, nos locais de seus cotidianos. Os tiram desse viver e os colocam junto das já, suas recrutadas vítimas de aprisionamento. Numa alusão a Milan Kundera, poderíamos dizer que muitos historiadores não conseguem furar os próprios olhos. As produções utilizadas no ensino de história, de maneira quase que geral ainda não conseguiu descer de sua arrogância de se achar a luz do saber e considerar a comunidade como não pensante. Seus historiadores não conseguem furar os próprios olhos, como o fez Édipo ao trair a alegria de sua comunidade.

Deveríamos sentir prazer em [re] aprender a amar o dia e a noite e a paisagem que a enfeita mesmo que não seja aquela de outro tempo pois tudo nos liga à terra e que só nos falta o sentimento de pertencimento que adquirimos quando nos lançamos no dia a dia do seu fazer de homens. Não entendemos as palavras como partes que faltam e que entremeiam o prazer de viver. E ao pensar o viver, não notamos que vivemos entre o sonho e a embriaguez. Não conseguimos entender de que elas funcionam como formas, não de apreensão das coisas úteis para a vida, mas como forma de criação do mundo. Para os que buscam a vida tornando-as transparentes, ou melhor, que em seu sonambulismo entendem haver algo de real para além da linguagem, a esses sim: as palavras lhes representam pedras no caminho do viver. Tal como a semente de frutas que nos impedem uma desmedida mordida prazerosa por outro lado possibilitam novas frutas para novas gerações. assim são as palavras para a vida.

Foucault, em seu livro Arqueologia do saber, questiona a utilização de noções, de conceitos, de temas e a naturalização, a positividade dessas metáforas que são utilizadas como moeda de troca, sem ao menos serem desfamiliarizadas. Precisamos estranhar o presente antes de nos aventurarmos a elucidá-lo. O século XX registrou algumas escolas, círculos de estudos, movimentos, que ao deparar com pedras no caminho da razão utilizou-se de suas próprias ferramentas, num esforço, tal como o boot strap, como forma de desvencilhamento dos dissabores causados pelos “desvios” da razão instrumental, em sua missão de levar a ilustração à toda a humanidade que entendiam estar esfacelada pela diversidade, pelas apropriações “equivocadas” que faziam da razão. Larrosa em sua obra Nietzsche e a educação mostra como a leitura, que deve algo para o nada, para o desconhecido e portanto oscilante cai na mira do pensamento ilustrado como algo que deva ser constantemente reendereçado ao rumo certo na busca da consciência absoluta e libertadora, nas apropriações marxistas, ou na sua fonte anterior de teor hegeliano, conseqüentemente dos fenomenologistas e na viagem kantiana da menoridade à maioridade. Libertar-se desse modelo de liberdade seria então, segundo Nietzsche, o sentido contrário, ou seja, da maioridade em busca do seu ser criança, àquele momento em que se pode praticar a leitura do mundo pela arte da criação sem um sentido prescritivo definidor do certo e do errado. Pensar fora da ordem discursiva significou, no pensamento moderno como algo que dever ser corrigido, como algo que deva ser excluído caso exista na forma irreversiva.
Comunidades de pensamento, como o Circulo de Viena, Escola de Frankfurt, tiveram em representantes como Husserls e Hábermas dois exemplos de críticas ao racionalismo sem desvencilhamento com seus instrumentais. O que se entendia era a tentativa de salvação do caminho da liberdade puxando o próprio corpo pelo cadarço do próprio sapato. Larrosa mostra isso bem no capítulo Libertação da liberdade.Enquanto no campo da Educação a prática do ensino sofre um deslocamento de cunho pós-estruturalista, principalmente na escrita de Veiga-Neto, no campo da historiografia, no que concerne às obras de prática de ensino de história, os estudos publicados não conseguem ultrapassar o modelo frankfurtiano. A angústia quanto a essa realidade produz por outro lado a inquietação e a necessidade de não haver acomodamento e lutarmos para uma historiografia que leve em conta a “vida”, a cultura como elemento cultivador da vida, e finalmente o conhecimento sobre o passado deixe de ser um fardo e passe a ser alimentador da fertilização das culturas e não de suas exclusões.
oleotti@bol.com.br



[1] Mestre em História pela Unicamp. Professor efetivo do Departamento de História da Universidade Federal de Mato Grosso. Centro Universitário de Rondonópolis. oleotti@bol.com.br
[2] DELEUZE, Gilles. A lógica do sentido. São Paulo: ed. Perspectiva, 2000, p. 259.

2 Comments:

Blogger ZELÃO said...

Bacana seu texto, Odemar!
Indicarei seu blog às alunas de pedagogia para discutirmos suas proposições na disciplina fundamentos e metodologias do ensino da história!

Abração!
Zelão

Zelão Teixeira (face)
teiaz.blogspot.com
zelosmegatrend@uol.com.br

3:44 AM  
Blogger ZELÃO said...

Bacana seu texto, Odemar!
Indicarei seu blog às alunas de pedagogia para discutirmos suas proposições na disciplina fundamentos e metodologias do ensino da história!

Abração!
Zelão

Zelão Teixeira (face)
teiaz.blogspot.com
zelosmegatrend@uol.com.br

3:45 AM  

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